• Marina Morais

O Guia da Alimentação no Aleitamento Materno


Se existe algo maravilhoso que você pode fazer pela saúde e nutrição do seu bebê é amamentar exclusivamente até os 6 meses de idade e seguir amamentando nos meses subsequentes (a recomendação da OMS é até 2 anos). Deixo aqui a observação de que afirmações que louvam o aleitamento materno não são uma crítica às mães que não amamentam, ok? Se você escolheu não amamentar ou não pode amamentar, tudo bem! Mas de fato a opção mais fisiológica, completa e barata para a alimentação do bebê de até 6 meses é o Aleitamento Materno Exclusivo. 

Amamentar pode, no entanto, ser um desafio. Especialmente se não nos prepararmos para essa jornada com conhecimento. Com a intenção de ajudar as mamães que querem aproveitar ao máximo esse ato de doação e cuidado tão gostoso, escrevo esse guia!

O primeiro leite


A caminhada do Aleitamento Materno começa na gestação: é ele que começa o primeiro estágio da lactação. Nesta primeira etapa, seu corpo começa a se preparar para produzir leite e os seus ductos lactíferos começam a se espandir e amadurecer. Toda essa transformação culmino no pós-parto, quando de fato a maior parte das mulheres comela a ejetar “leite” (lembrando que algumas podem sim ejetar antes do parto).

Os hormônios liberados no parto e queda de alguns hormônios da gravidez fazem com que o colostro seja liberado. Colostro é o nome que damos para esse primeiro leite, o leite inicial, que é diferente do leite maduro, mas também extremamente importante. Ele é mais ralo e mais claro do que o leite maduro, além de ser produzido em uma quantidade menor. Mas isso não significa que ele é fraco ou que precisa ser complementado com fórmulas. Na verdade, o colostro é EXATAMENTE o que o seu filho precisa nos primeiros dias de vida.

A "descida" do Leite

Alguns dias depois do parto (entre 3 e 5 dias), acontece a tal da apojadura. É quando o leite maduro “desce” com muito mais potência do que o colostro. Aliás, ele vem em tanta “quantidade” e de uma vez que é muito comum que os peitos fiquem edemaciados (inchados), quentes e vazem. Nessa fase, se o bebê não estiver pegando bem o peito e sugando bem, pode acontecer a tal da mastite, justamente por conta dessa quantidade toda. Mas não se preocupe, isso passa! 

Depois de um tempo, o seu corpo regulará a produção e ejeção de leite! E aí estamos na etapa do leite maduro mesmo.  


Como ter bastante leite para o meu bebê?

Enquanto o colostro é ejetado e produzido por conta da queda de hormônios da gravidez, o leite maduro depende de algumas outras coisinhas. 

As duas mais importante são:

  1. A sucção;

  2. A tranquilidade da mamãe.

A Sucção do bebê, o contato da boquinha, da linguinha no bico do peito são os estímulos necessários para que o hormônio prolactina seja liberado. E é justamente esse hormônio que faz com que o leite seja PRODUZIDO. Por isso, é vital que você coloque o neném pertinho do seio, que você faça pele a pele (a pele nua do bebê em contato com a sua pele), que você deixe o bebê sugar bastante o peito… E é por isso também que o uso de bicos artificiais não é recomendado durante a amamentação. Queremos que a sucção do bebê seja no peito, aonde a produção do leite pode ser estimulada e não em chupetas ou mamadeiras. Eu mesma usei chupeta por uma semana com meu neném e detestei a experiência por diversos motivos (vale um post só para contar essa história). Mas a razão mais forte para evitar o uso da chupeta e de bicos artificais é esse: eles podem sim atrapalhar a amamentação!

E esse é um dos motivos pelo qual  LIVRE DEMANDA na amamentação é o que recomendamos sempre! O bebê mama sempre que pede e isso ajuda a estimular o corpo da mãe a produzir leite suficiente, por conta de toda a sucção!

Enquanto a prolactina faz com que o leite seja produzido, é a ocitocina que faz com que ele seja ejetado. E para que a ocitocina esteja alta e funcionante, é preciso que a mãe esteja tranquila. Sim, este hormônio é inibido em situações de estresse. 

“Peraí, Marina: então eu preciso não estar estressada no pós-parto? Um dos momentos mais intensos e potencialmente estressantes da vida?” A resposta é sim!

Uma das suas prioridades no puerpério é ficar tranquila e aliviar o estresse. Por isso, curta o seu neném, se cerque de ajuda e tenha uma rede de apoio! Banhos quentinhos, colos gostosos, ajuda da mãe e da sogra, conversas sinceras com toda a família, visitas apenas desejadas e convenientes… USE SUA VOZ e dialogue com sua família para fazer com que esse momento seja gostoso para todos! 

O fato de você estar se informando sobre o aleitamento materno já diminui a possibilidade do estresse exagerado: justamente porque você se sentirá mais confiante no processo. Outra dica é preparar o seu ninho e cantinho de amamentação. Uma luz baixa, música gostosa, chás relaxantes, almofada para apoio, poltrona confortável… tudo isso pode ajudar! 


Alimentação da Mãe X Cólicas e Gases

Está aí um assunto controverso! A primeira foto de comida que postei nas redes sociais logo depois que tive meu neném foi cheia de comentários como: “mas esse brócolis pode comer?”, “esse feijão não vai dar gases no neném?” e “pode carne vermelha?”…. Era só um prato de arroz, feijão, carne moída, vegetais cozidos e salada crua.

A verdade é que existem muitos mitos e más informações sobre alimentação durante o aleitamento materno. E ainda precisamos de mais estudos para esclarecermos algumas lacunas e dúvidas. Pesquisei bastante e fiz testes em mim mesma antes de contar para vocês o que penso a respeito disso tudo. Vamos lá então!

Começando pelas cólicas! Cólicas são bem comuns em nenéns de até 3 meses (em especial entre 45 e 90 dias de vida) e podem ser bem intensas e incômodas. Elas costumam vir acompanhadas de dor e gases e tem causas MULTIFATORIAIS. 

  1. A principal causa é a imaturidade do sistema gastrointestinal do bebê. É normal nascer com certa prematuridade intestinal, o que leva a essas complicações e sintomas.

  2. Alguns bebês possuem alergia à proteína do leite de vaca (APLV). O consumo de leite e derivados pela mãe pode nesse caso afetar a saúde do bebê amamentado. Nenéns que tem APLV podem apresentar mais cólicas, gases ou refluxo.

  3.  A saúde intestinal da mãe também pode estar relacionada a quadros de cólica no neném. Se o intestino dela está muito permeável, ele não faz o trabalho de barreira que precisa fazer e o bebê acaba recebendo um leite de digestão mais difícil. Adoçantes artificiais, aditivos químicos, medicamento e açúcar processado são alguns dos itens que podem prejudicar essa permeabilidade intestinal.

Ah, mas e alimentos específicos não dão cólica? Não tenho que fazer uma dieta sem feijão? Sem repolho? Sem batata doce? Sem leite?

Não. Não existe uma lista de alimentos que dão cólica porque todo neném é diferente! E toda mãe também. Existem relatos clínicos de mães que perceberam que ao consumirem certos alimentos, seus bebês apresentaram mais cólica, gases, irritabilidade e alterações no sono. São alimentos como carne vermelha, leite, trigo, peixe, frutos do mar, cebola, alho, brássicas, frutas cítricas, café, chocolate, cacau, feijão e leguminosas, oleaginosas… Ufa! Um monte de coisa! O que fazer? Cortar tudo da alimentação?

Você que sabe! Existem duas estratégias que eu acho que funcionam bem diante disso.

  1. A mãe come normalmente e aguarda. Se o neném apresentar cólica, ela tenta decifrar se algum alimento foi causador disso. Pode ser que o bebê não tenha cólica ou gases e a mãe possa seguir comendo normalmente. Mas, se ele tiver, é mais difícil perceber qual alimento piorou o quadro, já que a dieta contém tudo! 

  2. Essa foi a opção que eu escolhi: fiquei três semanas sem consumir nada (ou quase nada, já que tive alguns furos) desses alimentos dos relatos clínicos. Depois, fui inserindo aos poucos os alimentos para ver se algo causaria cólica no neném ou agravaria a situação. Fui abençoada: meu bebê não teve cólicas ou gases… Por isso, voltei a comer tudo! Mas se ele tivesse apresentado sensibilidade a algo específico, eu excluiria isso da dieta por alguns meses.


Alimentação da Mãe que Amamenta

Independente do que você escolheu como estratégia para manejo desse período de imaturidade intestinal, uma coisa é certa: é preciso que você cuide da sua saúde e alimentação.

  1. Por isso, priorize COMIDA DE VERDADE! Coma muitos alimentos in natura e minimamente processados e evite ao máximo consumir ultraprocessados!

  2. Cuide do seu intestino! Consumo boas fontes de fibras, alimentos probióticos e prebióticos e evite consumir alimentos que podem causar reações adversas em você! (Exemplos: Se você tem enxaqueca quando come açúcar, não consuma. Se você tem intolerância à lactose, não consuma).

  3. Evite excesso de cafeína, porque isso pode afetar o sono e irritabilidade do bebê. Limite em até 300mg de cafeína por dia. Para saber quanto de café, chá ou chocolate você pode incluir na dieta com essa quantidade de cafeína, leia este post.

  4. Nutra-se bem! Consuma boas fontes de ferro, cálcio, proteínas e gorduras. Uma alimentação variada, caseira e colorida costuma suprir essas necessidades. No entanto, é interessante fazer exames de sangue para verificar se a suplementação de algum nutriente será necessária. 

Sobre a quantidade de leite, falamos um pouquinho sobre como os hormônios são importantes nesse processo! E sobre como tranquilidade e succção são importantes. Mas e a comida? Não afeta a produção do leite?

O que mais afeta é a restrição calórica (que pode acontecer em dietas para emagrecimento). Não faça restrições calóricas! Você precisa de calorias extras para produzir leite (cerca de 500kcal a mais por dia), então é claro que vai sentir mais fome! Honre essa fome e coma comida de verdade para suprí-la.

Mais uma vez, reforço: beba muito água! Muita mesmo! Isso faz muita diferença na produção de leite.

Espero que essas informações te ajudem na sua missão de mamães-leiteira! Abraços, Marina

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